
Enquanto o futebol feminino segue em crescimento em muitos países, com aumento de audiência, contratos milionários e maior profissionalização, nem todas as ligas compartilham esse avanço.
Um exemplo emblemático é a A-League Women (ALW), principal divisão do futebol feminino na Austrália, que enfrenta uma crise estrutural e competitiva, com redução de público, salários baixos e uma preocupante fuga de talentos.
Essa situação expõe desigualdades profundas no esporte, que repercutem também em outros países, inclusive o Brasil.
RELATÓRIO
Em novembro de 2025, a Professional Footballers Australia (PFA) – sindicato que representa jogadoras e jogadores – divulgou o relatório sobre a temporada 2024–25 da A-League Women.
O documento é contundente ao definir o atual momento como um “ponto de inflexão crítico” para a competição, que estaria perdendo fôlego frente a ligas emergentes e consolidadas no mundo.
Segundo o relatório, a ALW passou a ser considerada a liga menos preferida globalmente pelas próprias atletas que nela jogam. Parte desse cenário vem do fato de que os salários médios estão entre os mais baixos do esporte feminino no país, com contratos que muitas vezes não permitem dedicação exclusiva ao futebol.
“A ALW atingiu um ponto de inflexão. Sem investimento urgente e um plano para transitar para o profissionalismo em tempo integral na próxima temporada, a liga corre o risco de perder mais talentos, perpetuando um ciclo danoso de compromissos a tempo parcial e prejudicando sua conexão com os fãs”, Beau Busch, Chief Executive da PFA.
SALÁRIOS, AUDIÊNCIA E FUGA DE TALENTOS
Os efeitos desse modelo já são visíveis nos números. A média de público em jogos da ALW em 2025 foi de cerca de 1.985 espectadores por partida, valor baixo para uma competição que já teve maior visibilidade após a Copa do Mundo.
Além disso, a pesquisa da PFA apontou que 62% das jogadoras trabalham fora do futebol para complementar a renda, enquanto 76% relatam insegurança financeira significativa mesmo dedicando horas ao esporte.
“Profissionalizar a A-League daria a mim e a muitas outras jogadoras a segurança para focar no futebol em tempo integral. Para muitas, o caráter semi-profissional cria incerteza quanto ao futuro e a capacidade de desenvolver plenamente o jogo”, Sasha Grove, jogadora do Canberra United e membro do comitê executivo da PFA
RETRATO BRASILEIRO: MACHISMO E DESENVOLVIMENTO DESIGUAL
Enquanto a situação australiana expõe desafios de sustentabilidade mesmo em um país consolidado, o Brasil enfrenta suas próprias dificuldades, muitas vezes agravadas por problemas financeiros, falta de investimento e persistente machismo estrutural.
Um caso emblemático ocorreu no Fortaleza Esporte Clube, que anunciou o encerramento do seu departamento de futebol feminino para 2026, poucos meses depois de alcançar um acesso inédito à Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino.
A decisão foi justificada por restrições orçamentárias e pela necessidade de priorizar o equilíbrio financeiro após o rebaixamento do time masculino no Campeonato Brasileiro.
“Com responsabilidade, transparência e respeito a todos os profissionais envolvidos, comunicamos que o Fortaleza Esporte Clube SAF não dará continuidade ao projeto de futebol feminino no ano de 2026”, destacou comunicado oficial do Fortaleza.
GOLPE
Foi um duro golpe para o futebol feminino cearense, refletindo infelizmente uma realidade maior no País: vários clubes brasileiros consideram ou já tomaram decisões semelhantes em momentos de crise financeira -muitas vezes relegando a modalidade feminina para segundo plano.
Por outro lado, há exemplos que mostram caminhos diferentes. O Ceará Sporting Club, rival regional do Fortaleza, aprovou recentemente um aumento no investimento no futebol feminino para 2026, sinalizando compromisso com o desenvolvimento da modalidade mesmo diante de dificuldades no futebol masculino.
A LUTA POR IGUALDADE NO FUTEBOL BRASILEIRO
No Brasil, o futebol feminino ainda convive com preconceitos enraizados e desigualdades culturais. Pesquisas sobre a prática esportiva no País indicam que apenas uma pequena parcela da população feminina pratica futebol de forma regular em comparação aos homens.
Esses elementos tornam a trajetória de jogadoras ainda mais complexa, exigindo políticas públicas, investimentos privados e transformações culturais para que a modalidade ganhe espaço e sustentabilidade.
CONCLUSÃO
Em contraste com os desafios da ALW e do Brasil, ligas como a NWSL (EUA) e a FA Women’s Super League (Inglaterra) têm atraído investimento, público e talentos internacionais – fatores que as tornam modelos de crescimento sustentável.
O principal diferencial está no compromisso com profissionais em tempo integral, contratos mais estáveis e forte apelo comercial.
Sem isso, ligas importantes — como a australiana — correm o risco de perder competitividade e relevância justamente quando o esporte vive um de seus maiores momentos de visibilidade mundial.





























