Onde a história joga bola. Clubes que o tempo escondeu

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Antiga sede do América (RJ)
Antiga sede do América (RJ)/Foto: Divulgação

Quando os campeonatos estaduais de 2026 começarem — alguns já estão em andamento, outros prestes a dar o pontapé inicial — o olhar da grande mídia se voltará, mais uma vez, para os protagonistas de sempre. 

Entretanto, longe dos holofotes dos clássicos tradicionais, existe um Brasil futebolístico quase esquecido, formado por clubes que já foram gigantes regionais, acumularam títulos e rivalidades, mas hoje lutam apenas para sobreviver.

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Estas agremiações não desapareceram por completo, mas se tornaram quase invisíveis no noticiário nacional, mesmo continuando centrais para a memória afetiva de seus estados.

CLUBES QUE JÁ FORAM POTÊNCIAS LOCAIS

No Campeonato Paulista, o exemplo mais emblemático segue sendo a Associação Atlética Portuguesa. Campeã paulista em 1973, presença frequente em competições nacionais e internacionais nas décadas seguintes, a Lusa passou a maior parte dos últimos anos longe da elite.

Problemas financeiros, gestões desastrosas e a dificuldade de adaptação ao futebol-empresa empurraram o clube para um limbo esportivo.

A Lusa, aliás, já estreou no Paulistão deste ano, perdendo de 1 x 0 para o poderoso Palmeiras.

O ex-presidente do clube, Manuel da Lupa, chegou a resumir esse processo em entrevista anos atrás: 

“A Portuguesa perdeu o bonde da profissionalização do futebol. Enquantos outros se modernizaram, nós nos acomodamos”, lamentou.

Situação semelhante vive o América (RJ), campeão carioca sete vezes.

Hoje, o clube retorna ocasionalmente à primeira divisão do Rio, mas sem o peso institucional e midiático que já teve. O popular “Mecão” ainda tem uma torcida muito fiel e apaixonada, que não deixa de acompanhar o time nos estádios.

O JEJUM COMO MARCA DE IDENTIDADE

Curiosamente, em alguns casos, o que mantém esses clubes vivos é justamente o jejum. No Campeonato Mineiro, o Villa Nova, de Nova Lima, não conquista o estadual desde 1951. 

Mesmo assim, segue como símbolo de resistência. Fundado em 1908, o clube ainda mobiliza a cidade inteira em dias de jogo.

O historiador e jornalista Milton Neves, mineiro e profundo conhecedor do futebol estadual em Minas Gerais, já afirmou em diversas ocasiões:

“O Villa Nova é um patrimônio do futebol mineiro. Ele pode não ganhar títulos, mas sem ele o campeonato perde alma.”

QUANDO O FUTEBOL SAI DA CAPITAL

Nos estaduais de 2026, algumas histórias curiosas vêm do interior. No Campeonato Cearense, por exemplo, clubes como Ferroviário e Icasa seguem alternando momentos de protagonismo e esquecimento. 

O Icasa, que já frequentou a Série B nacional, hoje luta para se reorganizar após quedas sucessivas e crises administrativas.

O ex-jogador Clodoaldo, ídolo do Ceará e profundo conhecedor do futebol do estado, costuma lembrar: 

“O futebol do interior sofre porque depende muito de gestões locais. Quando o dirigente erra, o clube some rápido.”

Esse desaparecimento rápido explica por que muitos clubes, mesmo com história recente relevante, deixam de ocupar espaço na imprensa.

ESTREANTES E RETORNOS QUE PASSAM DESPERCEBIDOS

Os Estaduais de 2026 também trazem estreantes e clubes que retornam à elite após longos períodos. No Paranaense, equipes como o Andraus Brasil e o Azulão de Campo Mourão carregam histórias comunitárias riquíssimas, mas quase sempre ignoradas fora do noticiário local.

Esses clubes costumam funcionar como centros sociais de suas cidades — algo que o ex-técnico Joel Santana já definiu bem ao falar sobre futebol estadual:

 “Tem clube pequeno que é maior que muito grande, porque sustenta uma cidade inteira emocionalmente.”

POR QUE SUMIRAM DO NOTICIÁRIO?

O desaparecimento desses clubes do noticiário não é acidental. O fato passa por três fatores principais:

  1. Concentração de audiência nos grandes clubes, impulsionada por TV e redes sociais;

  2. Crises financeiras e administrativas, que reduzem desempenho esportivo;

  3. Perda de narrativas humanas, substituídas por análises de mercado, transferências e cifras.
    Como lembrou Zico, em uma de suas reflexões mais conhecidas sobre o futebol brasileiro: “Quando o futebol vira só negócio, ele perde parte da sua magia. É exatamente essa magia que os estaduais ainda guardam, mas que poucos se dispõem a contar”.
CONCLUSÃO

Em 2026, os campeonatos estaduais seguem sendo o último reduto onde esses “dinossauros” ainda caminham. 

Os clubes “esquecidos” estar mais lentos, menos vistosos, mas continuam carregando memórias, rivalidades e identidades que não aparecem nos rankings de audiência.

Resgatar essas histórias não é saudosismo. É jornalismo.