
Rebaixado pela primeira vez em sua história em 2019, o Cruzeiro viveu um dos processos mais custosos do futebol brasileiro recente, tanto do ponto de vista esportivo quanto financeiro. A queda para a Série B não representou apenas a perda de status competitivo, mas o início de um colapso estrutural, com efeitos prolongados sobre receitas, contratos e planejamento do clube.
A análise dos números ajuda a dimensionar quanto, de fato, o rebaixamento custou ao Cruzeiro.
Receita antes e depois: queda imediata do orçamento
Em 2019, ainda na Série A, o Cruzeiro operava com um orçamento anual estimado entre R$ 350 e R$ 380 milhões. O clube figurava entre os maiores faturamentos do país, sustentado por direitos de transmissão elevados, patrocínios relevantes e presença frequente em competições continentais.
Com o rebaixamento, a realidade mudou drasticamente. Entre 2020 e 2021, já na Série B, o orçamento do clube caiu para algo entre R$ 180 e R$ 200 milhões por temporada, o que representa:
- uma redução anual de aproximadamente R$ 150 a R$ 180 milhões,
- queda de quase 50% nas receitas totais em relação ao período na elite.
Essa diferença não foi pontual, mas se manteve ao longo dos anos fora da Série A.
Direitos de TV: a maior perda individual
Os direitos de transmissão foram o item mais impactado pelo rebaixamento.
Antes da queda:
- o Cruzeiro recebia entre R$ 100 e R$ 120 milhões por ano em cotas de TV na Série A.
Após o rebaixamento:
- esse valor caiu para cerca de R$ 20 a R$ 25 milhões anuais na Série B.
Na prática, o clube deixou de arrecadar até R$ 90 ou R$ 100 milhões por temporada apenas com direitos de transmissão, um corte que, sozinho, já inviabiliza a manutenção de qualquer estrutura de Série A.
Folha salarial: cortes forçados e perda de ativos
Antes do rebaixamento, o Cruzeiro mantinha uma das maiores folhas salariais do país, estimada entre R$ 15 e R$ 18 milhões por mês.
Com a queda, os cortes foram inevitáveis:
- a folha mensal caiu para algo entre R$ 4 e R$ 6 milhões,
- diversos jogadores deixaram o clube por meio de:
- rescisões contratuais,
- empréstimos,
- vendas abaixo do valor de mercado.
Esse processo foi marcado por instabilidade, já que o clube:
- acumulava atrasos salariais,
- enfrentava ações judiciais,
- tinha pouca margem de negociação.
Patrocínios e perda de valor de mercado
O rebaixamento também afetou diretamente o valor comercial da marca Cruzeiro. A menor exposição nacional reduziu o interesse de patrocinadores e enfraqueceu o poder de negociação do clube.
Estimativas indicam que:
- a receita comercial caiu entre 30% e 40% no primeiro ano após o rebaixamento,
- contratos foram renegociados com valores menores,
- novos acordos passaram a ser mais curtos e condicionados a desempenho esportivo.
Mesmo com grande torcida, o clube perdeu relevância comercial no curto prazo.
Endividamento e efeito acumulado
A redução drástica de receitas agravou um cenário financeiro já frágil. Com menos recursos, o Cruzeiro teve dificuldades para honrar compromissos trabalhistas, fiscais e contratuais.
Ao longo dos anos seguintes ao rebaixamento:
- as dívidas do clube ultrapassaram R$ 1 bilhão,
- o passivo cresceu de forma descontrolada,
- sanções esportivas e limitações operacionais se tornaram frequentes.
Esse cenário levou à necessidade de uma reorganização profunda, culminando na transformação do clube em SAF.
Quanto custaram os anos fora da Série A
O Cruzeiro permaneceu três temporadas fora da elite (2020 a 2022). Considerando:
- a diferença nos direitos de TV,
- a queda nas receitas comerciais,
- a perda de competitividade esportiva,
estima-se que o custo total do período fora da Série A tenha superado R$ 400 a R$ 500 milhões ao longo de alguns anos.
Trata-se de um impacto financeiro capaz de redefinir completamente o futuro de um clube.
Rebaixamento como ponto de ruptura
No caso do Cruzeiro, o rebaixamento não foi apenas um mau resultado esportivo. Ele representou o colapso de um modelo de gestão e expôs fragilidades acumuladas ao longo de anos.
Os números deixam claro por que cair da Série A, no Brasil, é um dos eventos mais destrutivos para clubes de grande porte. Mais do que perder jogos, o rebaixamento significa perder receita, margem de erro e estabilidade.




























