
O futebol feminino no Brasil vive, em 2025, uma fase de contrastes: celebra conquistas expressivas e ampliou seu calendário, mas enfrenta um desafio persistente e preocupante: a falta de patrocínio de valor significativo.
A partir de dados atualizados até o final de agosto de 2025, torna-se evidente que, apesar dos avanços, persuadir o mercado e a sociedade a reconhecer e valorizar o esporte ainda demanda esforço.
AVANÇOS E CALENDÁRIO MAIS ROBUSTO
Nos últimos meses, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) apresentou importantes novidades: uma reunião histórica com representantes de clubes das Séries A1, A2 e A3 e das federações estaduais resultou em metas concretas.
Até 2027, o A1 deve contar com 20 clubes, e o A2 chegará aos mesmos 20 até 2028. Além disso, foi criada uma nova Copa do Brasil Feminina com 64 equipes, e houve expansão das categorias de base femininas
O calendário de 2025 está mais robusto do que nunca: Supercopa Feminina (março), Brasileirão A1 (março a setembro), Brasileirão A2 (abril a agosto), A3 (até meados de agosto), Copa do Brasil Feminina (maio a novembro), e campeonatos de base Sub‑14, Sub‑16, Sub‑17 e Sub‑20 em diversos períodos do ano.]
COPA DO BRASIL
Também foi retomada, após nove anos, a Copa do Brasil Feminina, reunindo 65 clubes em três divisões, o que amplia o calendário das divisões inferiores, proporcionando mais disputas e visibilidade).
Na Supercopa Feminina 2025, disputada entre 7 e 15 de março, o São Paulo conquistou seu primeiro título ao derrotar o Corinthians nos pênaltis
E, internacionalmente, o ponto alto do meio do ano foi a emocionante final da Copa América Feminina, no Equador, onde o Brasil levantou o nono título após vencer a Colômbia por 5 x 4 nos pênaltis (4 x 4 no tempo normal).
Marta, aos 39 anos, foi decisiva ao marcar dois gols, inclusive um golaço de longa distância que levou a final para a prorrogação. A Rainha segue encantando o mundo com seu imenso talento.
PATROCÍNIO AINDA DISTANTE DO IDEAL
Apesar do calendário fortalecido, o futebol feminino brasileiro paga preço caro por sua carência de patrocínios. A Série A1, principal campeonato nacional, está sem patrocinador principal em 2025, ao contrário dos anos anteriores, quando tinha apoio de Betano, Neoenergia e Binance .
A situação piora quando se lembra de que o país sediará a Copa do Mundo Feminina de 2027 – e ainda assim o Brasileirão Feminino não atraiu patrocínio principal.
A ex-volante Formiga expressou indignação: “É difícil de aceitar que vamos sediar uma Copa do Mundo e não conseguimos patrocinadores para o principal campeonato nacional?”
A CBF tentou negociar com novas marcas, mas segundo seu ex-presidente Ednaldo Rodrigues, as ofertas foram consideradas baixas e capazes de desvalorizar a competição
Em contrapartida, o Paulistão Feminino alcançou um recorde de sete patrocinadores, com investimento superior a R$ 8 milhões – um sinal claro do potencial que o futebol feminino tem quando bem apoiado regionalmente
PRECONCEITO
Além da instabilidade financeira, o futebol feminino convive com preconceito cultural. Como relatado com contundência em diversas entrevistas, incluindo com Marta, o machismo “trava o desenvolvimento… investir no futebol feminino… para que o atleta se dedique 24 horas como profissional, assim como no masculino”.
Marta frisou também que, mesmo entre 2004 e 2011, com conquistas inéditas, “isso não foi o suficiente para começar a mudar o cenário do futebol feminino”.
Historicamente, essa luta não é nova. Entre 1940 e 1979, mulheres foram proibidas de jogar bola no Brasil. Ainda hoje, há relatos como o de Larissa: “Menina jogando bola? Lugar de mulher é em casa, cozinhando… não é no campo de futebol”. Ela rebate: “O futebol feminino é a mesma coisa que o masculino… por que mulheres não podem jogar?”.
Emily Lima, uma técnica da seleção feminina, também comenta sobre os obstáculos persistentes: falta de estrutura, fechamento de equipes, escassez de clubes para as meninas jogarem, e a necessidade de CBF e federações criarem condições para manter investimentos.
NO EXTERIOR
Em muitos países, sobretudo na Europa e Estados Unidos, o futebol feminino já conquistou maior estrutura, patrocínio e atenção midiática. Embora ainda haja desafios e desigualdades em alguns lugares, a modalidade tem evoluído com contratos robustos, salários mais baixos, mas dignos, e estádios regulares – contrastando com a realidade brasileira.
IGUALDADE
Ativistas e jogadores europeus, por exemplo, têm promovido projetos de igualdade, como o “Equality Ball”, uma iniciativa global que pretende afastar o discurso de gênero no futebol e apoiar infraestrutura esportiva e educacional inclusiva
Ainda assim, preconceito existe em muitas sociedades, mas é cada vez mais combatido com políticas públicas e visibilidade.
O QUE FAZER PARA APROFUNDAR A PRÁTICA?
- Buscar patrocínios regionais fixos, como no Paulistão, e progressivamente ampliá-los a escala nacional;
- Explorar novos formatos de visibilidade— melhorar transmissões, redes sociais, branding de atleta (como Marta e Formiga continuam fazendo);
- Investir em base e formação, fortalecendo competições juvenis para estruturar o futuro, conforme o plano da CBF
- Combater o preconceito conscientementecom campanhas, educação e protagonismo feminino — levando as histórias de Marta, Emily, Formiga às escolas e às mídias;
- Aproveitar a Copa do Mundo de 2027como um momento de virada estratégica — garantindo visibilidade, infraestrutura e engajamento financeiro duradouros.